Numa sexta-feira à noite eu e uma amiga resolvemos ir até o Supermercado Pão de Açúcar, no bairro dos Aflitos, para comermos uma pizza feita na hora em forno à lenha, que por sinal é deliciosa. Não estávamos com muita fome, mas com muita vontade de comer e num consenso resolvemos então pedir uma pizza com oito fatias.
Depois de três fatias e meia cada uma estávamos mais que satisfeitas e alimentadas, resolvemos então enrolar a última fatia em alguns guardanapos para que a caminho da parada de ônibus quando encontrássemos algum morador de rua oferecêssemos o alimento. Começou a nossa Saga.
Quanta presunção a nossa. Acontece que andamos cerca de quatro quarteirões e se quer houve rastro de moradores de rua entre os Aflitos e o bairro das Graças. Andamos em busca de alguém que estivesse faminto e somente achamos restaurantes, galerias, posto de gasolinas, lindos e antigos casarões, sem falar nos altos e luxuosos prédios construídos e em construções e toda a classe média que desfruta tudo isso.
Ironia não? Logo no Recife, cidade que possui centenas de pessoas morando nas ruas, onde o dia-dia urbano denuncia a mazela de um poder concentrado em poucos, da negação da informação e formação, e o olhar costumeiro para tudo isso.
É confortável sair pelas ruas e imaginar que tudo está bem, que não há fome, não há dor, não há medo, não há ‘poluição visual humana’ nas calçadas. Excluir o excluído de certa área é cômodo para quem vive ali. Eu não vejo a miséria e, com isso, esqueço-a, ela não se faz presente no meu dia-dia.
Jogo ‘o feio’ que já vive à margem para fora dela, depois da linha imaginária. A revolta não é não encontrar moradores de rua naqueles bairros vizinhos, é a ciência de que o problema existe. Bastou sair em direção ao centro da cidade, caminho de casa, e estavam lá ao redor, inclusive, de um comício político, várias pessoas nas calçadas, nas pontes, nas ruas, com fome, com frio, sem nada.
Os invisíveis quando não visíveis se tornam muito mais invisíveis.
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